Por Rita Lopes*

A preguiça está entre as maiores delícias que a correria da modernidade insiste em nos retirar. Ficar à toa hoje em dia pode ser sinônimo de exceção e até mesmo de culpa. Trabalhar, sair, agitar, estressar-se ou ser neurótico virou moda e ai de quem tentar mudar essa tendência. Apesar de admitir que também integro o grupo dos hiperativos, às vezes eu me nego à loucura, entrego-me ao ócio e grito: “Quero ficar em casa!”

Quem quiser que me compreenda e me queira, assim mesmo, na minha molenga vontade de me recolher. Depois de cansativas horas na rua, quero abrir a porta e custar a abri-la novamente. Quero estar envolta, como num manto de chantilly, na paz acolhedora e insubstituível do lar. Pros que pensam que isso é tristeza, engano! Estar assim, encolhida e escondida, é quase aventurar-me na alegria de uma montanha russa ou na euforia sensual de um hit de Madonna.

 Sim, adoro ficar em casa, sentir cheiro de lençol e usar, com tempo e folga, o sofá do meu reduto televisivo e o reinado do meu banheiro. Quero tomar café com pão e croissant, pela manhã e à tarde, ou quantas vezes me convier. Quero me soltar, andar de chinelos e depois de olhar as horas confirmar que o sol, a pino, nem sempre significa labuta. Gosto até de ouvir a bagunça que lá de fora emana, pois que a gritaria da multidão me lembra que estou cá dentro e, assim, especialmente benta.

Enquanto o filho dorme, quero me refastelar, ficar de bobes, lambuzar-me com creme ou com chocolate. Cuidar da aparência e dela ao mesmo tempo descuidar, de roupão folgado, de pernas pro ar.  E quando estou sozinha, naquela unidade tão satisfatória, escutar os barulhos que eu mesma faço, planejar o curto trajeto da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto. Pra me lembrar de que não sou uma ilha, chego à janela, pra espiar a lida alheia. Vejo o moço musculando, a senhora bocejando, a criança que pirraça.  Nesse jejum de ansiedade, eu acendo velas, observo o voar do mosquito, admiro Buda até babar. É tanto intervalo, tanta leseira, tanta contracultura, que eu acabo perdendo a noção do que é vida e do que é obrigação.

Aos que ainda não entendem meu exílio, eu mando de novo um recado de poucas palavras, devido à canseira de escrevinhar: “Quero ficar em casa!”. Pros que pensam que isso é tristeza, já disse, engano! Isso é pura vontade de espreguiçar.

*A autora é jornalista, locutora e colaboradora do Ameixa Japonesa, como cronista.

 

8 Respostas para “Crônica: Em casa, de bobes”

  1. luciene brigida

    ai, que delícia!me identifquei total, rita!brilhante!bjs.

  2. Dennyse Bacelete

    Também adoro dia de preguiça. Pena que é só de vez em quando.
    Bjs, Ameixinha!

  3. Marco carvalho

    As crônicas de Rita Lopes chegam na hora certa e com temas de quem tem a coragem de abordá-los de maneira descomplicada, sob uma ótica de quem experimenta o comentado transmitindo uma veracidade ímpar….confesso que já as espero feito menino frente a vitrines de doces a espera de sonhos ( o doce ) frescos….e digo mais, que nossa missivista vença o ócio, vez em quando e nos brinde com suas “doces” crônicas mais amiúde…..

  4. Audrey

    Rita, querida, vc leu meus pensamentos…. tudo que mais quero é curtir uma preguiça sem culpa, sem pressa, sem ter que dar satisfaçoes…se as crianças deixarem, é claro! rsrsrs
    bjos

  5. Zilah

    Falou tudo.

  6. Verônica

    Ahhhh…a preguiça…descrita como desejada…e como!!!! Beijo!!!

  7. Karina Barbosa

    delícia de crônica, fieldoca! amei milhões de vezes! vou ali fazer uma preguicinha porque deu uma vontaaaaade…….

  8. Melhor da semana #02 | once upon a girl time

    [...] Crônica de Rita Lopes no Ameixa Japonesa; [...]

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