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“Estão comendo o mundo pelas beiradas / roendo tudo, quase não sobra nada”. Como boa parte da obra da Nação Zumbi, os primeiros versos de Um Sonho, lançada no último álbum da banda em 2015, estão à frente de seu tempo. Visionária, prevê o mundo em decadência que hoje habitamos. Um mundo de Trumps e Temers. Quase não sobra nada. Pelo menos não a quem mais precisa.

Sim, este é um texto panfletário. Não é culpa do Ameixa Japonesa, que simplesmente encomendou uma cobertura do show da Nação durante o festival Vibra, na última sexta-feira (1/09), em Belo Horizonte. Eu é que estou subvertendo o tema.

Afinal, ainda é preciso dizer algo sobre a imensa qualidade musical do grupo pernambucano? Não será eu, mero escrevinhador torto, que irá balizar isso. Todos já sabem que se trata da melhor banda nacional desde Os Mutantes. Todos já sabem que suas músicas ganham acentos mais pesados e animados nos shows.

O que realmente importa neste momento é um outro lado da Nação. O do posicionamento político. Uma das poucas bandas a dar a cara tapa nesse sentido. E o fizeram no passado, tanto em letras como “...é o povo na arte, é arte no povo. E não o povo na arte, de quem faz arte com o povo…”, como também em atitudes recentes, como a do guitarrista Lúcio Maia mandando um “Fora Temer” na transmissão ao vivo do encerramento das Olimpíadas do Rio.

Não é nada fácil se expor desta forma, se posicionar. Quebrar o protocolo é o que apenas 1% dos artistas fazem e o que 99% dos “artistas” evitam. Porque as consequências dessa atitude geralmente são ficar de fora de grandes eventos culturais e divulgações de forma geral. E para manter até mesmo a força criativa da Nação, certamente eles não podem se curvar. Artista que liga mais para opinião pública do que para o próprio talento não é artista.

O show do Vibra foi até mais contido em termos de discurso do que normalmente ocorre nas apresentações da banda – claro que não faltou o já, infelizmente, clássico “Fora Temer” puxado pela banda. Também foi uma das poucas apresentações que assisti da Nação – talvez a única, se a memória não me passou uma rasteira – em que não tocaram Da Lama ao Caos, um hino à revolta, a trilha sonora da não aceitação das mazelas.

Claro, assim como disse anteriormente, eles não devem satisfação a ninguém e como bons artistas devem fazer o que bem entender. Mas espero que não desistam nunca de cantar a luta nossa de todos os dias. Pois sempre representaram muito bem a todos nós, brasileiros desta incrível Nação.

Por Alisson Villa

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