oformidavel

Ser formidável 24 horas por dia deve cansar e ser muito trabalhoso. Talvez por isso ninguém o seja em sua essência. Nem mesmo os grandes ídolos do cinema, atores ou diretores passam por essa vida sendo perfeitos e agradando a todos. Nem mesmo Jean-Luc Godard, ícone supremo da nouvelle vague, revolucionário do cinema nos anos 60, ficou imune a isso em O Formidável, novo filme de Michel Hazanavicius (O Artista), que estréia hoje nos cinemas.

Baseado no livro Um Ano Depois, de Anne Wiazemsky, atriz e ex-mulher de Godard, o filme retrata justamente a relação dos dois, ela, com 19 anos, estrela de A Chinesa, novo filme de Godard, na época com 37 anos. Não é apenas um filme de amor. Nas mãos de Hazanavicius, O Formidável também é uma homenagem ao cinema, assim como O Artista. Com uma pegada mais leve, a intenção é desmitificar Godard e apresentá-lo como um ser altamente arrogante, impositor de seus pensamentos e, em certo grau, extremamente mimado. Aos olhos de Anne, aquele homem charmoso, inteligente que a conquistou, com o tempo se tornou uma presença insuportável de convivência.

A importância de Godard para o cinema está acima de qualquer critica. A sua direção revolucionária com seus planos sequências, a capacidade de improvisação durante as filmagens ainda com o roteiro sendo escrito servem até hoje como inspiração. Em O Formidável vemos um Godard já cansado de tudo que já tinha feito e em certo momento renega seus feitos. Estamos em 68 e a França passa por transformações políticas. Com idéias maoístas, Godard quer fazer parte dessa nova revolução e acredita que precisa estar nas ruas retratando um novo tipo de cinema.

Porém, a luta interna com o seu modelo de vida burguês e a incapacidade de conversar com esses jovens que estão na rua, que até então o vinham como o diretor de filmes comerciais, o tornam ainda mais ácido em relação a tudo e a todos. Godard já não consegue ser ouvido como porta-voz de uma geração e isso para uma mente brilhante e ao mesmo tempo egocêntrica não é fácil digerir.

O trabalho sensacional de Louis Garrel (Godard) e Stacy Martin (Anne) tornam a realização de O Formidável ainda mais agradável nas mãos de Michel Hazanavicius. A desconstrução do mito por meio de um ar de comedia torna a convivência do casal suportável aos nossos olhos. A metalinguagem muito bem introduzida no filme por Hazanavicius, como a sobreposição das vozes, o olhar direto dos atores para a câmera, os diálogos ácidos e cheios de cutucadas às técnicas usadas pelo cinema para surpreender o público deixam o filme riquíssimo em detalhes e principalmente no ritmo da narrativa.

Se não fossem por esses recursos e pela entrega dos atores, os fãs mais afoitos por Godard que me perdoem, mas O Formidável seria um porre de assistir, assim como deve ter sido por um período a convivência de Anne com Godard. Ser um gênio tem lá os seus percalços e seus vacilos, que nem sempre eles mesmos os enxergam. É um filme formidável.

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