alemdamorte

As experiências de quase-morte provocam curiosidade e fascínio em qualquer roda de discussão. Pesquisar sobre os inúmeros relatos sobre o caminho que essas pessoas percorrem até o ponto de escolha entre seguir ou não a “luz” é completamente diferente de se propor por livre e espontânea vontade passar por tal experiência. Se submeter a tal ressurreição foi a linha narrativa de Linha Mortal (1990) e, claro, do seu quase remake Além da Morte, que estréia hoje nos cinemas.

Dirigido pelo experiente e reconhecido diretor dinamarquês Niels Arden Oplev (Os Homens que Não Amavam as Mulheres – Suécia) e protagonizado por rostos conhecidos da nova geração hollywoodiana, como Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton e Kiersey Clemons, o roteiro de Ben Ripley segue a cartilha do filme de 1990: jovens estudantes de medicina decidem passar pela experiência de quase-morte para desvendarem os mistérios em torno disso. Mudam-se aqui os dramas pessoais e as consequências que essa experiência irá afetar na vida dos personagens.

Além da Morte cumpre o papel de entretenimento e o desejo de levar uma nova geração a essa narrativa por meio do time de atores. Porém ele se perde na proposta de suspense que o original cumpriu a risca. É o tipo de filme que ficamos esperando pelo clímax e ele não aparece. Ficamos com a angustia de que muito da história foi desperdiçada e não aprofundada o suficiente para gerar uma discussão a cerca de tais experiências.

Se em Linha Mortal abria-se uma discussão espiritual x medicina e uma narrativa mais bem amarrada sobre o ônus e bônus da decisão de cada personagem passar pela morte e ressurreição, em Além da Morte a questão fica somente no cerne cientifico da empreitada. A paranóia que toma conta dos personagens em seus momentos finais é rapidamente resolvida e a sensação é que o drama que cada um passou foi automaticamente apagado de suas memórias assim como os traumas do passado que vieram à tona devido a experiência.

Talvez Além da Morte seria muita mais interessante e eficiente se ao invés de um remake, a proposta fosse uma continuação de Linha Mortal. A presença de Kiefer Sutherland, como um professor de medicina, que também participou da primeira versão juntamente com um elenco jovem que despertava o interesse de Hollywood (Kevin Bacon, William Baldwin, Oliver Platt e Julia Roberts),  por um momento passou essa idéia. Mas não, Kiefer em apenas duas aparições apenas cumpriu com a cota de presença ilustre.

As criticas negativas e a pontuação baixa que  Além da Morte vem recebendo da imprensa e do público americano talvez seja um pouco pesada. Há uma direção precisa, uma entrega dos atores e uma atmosfera positiva em boa parte das sequências do filme. Peca-se no final, como já falado, onde tudo se resolve rápido demais e que as consequências de tal experiência talvez não tenham surtido grande efeito em seus personagens e nem no público. Vale o ingresso e a diversão.


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*Por Fabrício Horta

Há riqueza nas histórias brasileiras, e estas devem sempre ser contadas pelo nosso cinema. Dentre as histórias que aguçam a curiosidade do espectador está a do cangaço, um faroeste nordestino cheio de reviravoltas e fatos inusitados. Quando Breno Silveira, diretor do filme Entre Irmãs, que estréia hoje nos cinemas, se propõe a contar a história de Emilia (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa), uma adaptação do livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Pleebes, somos presenteados com a mitologia do sertão na forma destes justiceiros, os verdadeiros Robin Hoods do Sertão.

Neste cenário, de muita pobreza e do coronelismo no nordeste brasileiro dos anos de 1930, começa a trajetória das duas irmãs. Órfãs, criadas pela tia numa cidade mergulhada na seca, elas fazem seus planos para um futuro, mesmo que ninguém acredite que elas possam realizá-los. A tia desde cedo lhes ensina um ofício, o de ser costureira, e este ofício une as irmãs em suas jornadas.

O filme seria incrível se não fossem as mais de duas horas e meia de história. A linha de costura que unem as duas irmãs se perde em tantas alegorias, histórias secundárias e uma falta de edição de cenas. Fica evidente que se tem muita história a se contar, talvez uma minissérie coubesse melhor para Entre Irmãs. Quando chega o grande clímax do filme já estamos doidos para sairmos da sala de cinema. Realmente uma pena.

Mas há momentos primorosos no filme. A fotografia certeira é uma delas. Os tons de terras para os momentos de Luzia e seu bando no sertão pernambucano em total contraste com os tons mornos, calmos de Emilia na sociedade recifense. Tais contrastes nas cores das vidas que ambas decidiram viver não conseguem maquiar ou iludir o que tinham entre elas: uma ligação além das escolhas. Mesmo por caminhos tortuosos e diferentes, ambas as irmãs fizeram o mesmo trajeto.

Emília e Luzia escolheram qual tipo de passarinho queriam ser: o livre ou o que vive na gaiola. Assim como a prisão, a liberdade tem seu preço. Ambas as escolhas tem dores e alegrias. Há crescimento e amor em meio ao sertão, como também há dor e tristeza na liberdade enclausurada de uma vida de princesa. Nem sempre o príncipe encantado estará aonde imaginamos. Vale conferir.


bladerunner2049

Alguns clássicos, ou todos eles, como Blade Runner (1982), de Ridley Scott, não merecem continuidade, remakes ou qualquer outra desculpa. Eles existem em um tempo-memória e lá devem permanecer. Quando bate a saudade os revemos com a mesma intensidade da primeira vez. Dito isso, hoje estréia em todos os cinemas Blade Runner 2049 a continuação de uma das mais importantes histórias de ficção cientifica cinematográficas.

Lendo assim parece que Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve é um filme ruim. Não, longe disso.  É um filme grandioso, com tomadas áreas de tirar o fôlego, fotografia e som impecáveis. Mas tudo isso não justifica sua razão de existir. Pelo fato de se sustentar em uma história fraca, que ao final do final não vai embora com você. Ainda continua sendo uma história de detetive galgado no próprio gênero que o filme criou em 82: ciberpunk neo-noir! Faltou alma nessa continuidade.

Baseado no livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, o Blade Runner, de Ridley Scott mostrava um futuro distópico, uma Los Angeles em tons neons, fria, molhada nos questionando o tempo todo que o desejo de viver e sobreviver é fator principal de uma sociedade dividida entre humanos e replicantes. Em Blade Runner 2049, Villeneuve estende ainda mais esses questionamentos quando coloca um novo caçador de andróides, o agente K (Ryan Gosling) diante de um segredo enterrado ha 30 anos com um potencial de destruir ainda mais o que sobrou da Terra. A descoberta de K o leva a uma investigação para encontrar Rick Deckard (Harrison Ford), ex-policial Blade Runner que está desaparecido há três décadas.

E é justamente nesse encontro do novo com o velho proposto por Villeneuve, que Blade Runner 2049 cresce como filme e como justificativa de existir. A primeira metade do filme chega a ser sonolenta, mas o encontro entre K e Deckard aciona o botão da memória e retornamos em diversas cenas para o clássico de 82. Sem dá spoiler, é uma dessas cenas a mais emocionante dessa continuação e ela tem um nome: Rachael!

Na concepção da aparência geral do filme, Villeneuve queria permanecer fiel ao espírito do original. “Meu objetivo era homenagear a estética do cinema noir do primeiro, dando, ao mesmo tempo, ao novo filme a sua própria identidade”, enfatiza. E ele conseguiu. Embora nítida a preocupação em manter toda a estética consagrada no primeiro filme, Blade Runner 2049 se sustenta sozinho. Você não precisa ter visto a primeira versão de 82 para entender, embora seja uma sequencia, a nova história dirigida por Villeneuve. Mérito dele e dos roteiristas Hampton Fancher (também roteirista de Blade Runner (82)) e Michael Green.

Blade Runner 2049 foi feito para agradar os fãs que o filme carrega desde sempre, respeitando todo o clima noir imaginado e criado por Ridley Scott, mas também para arrematar uma nova legião de admiradores. Não espante se daqui alguns anos tenhamos uma nova continuação, afinal história é que não sobra. Talvez um pouco mais de ação e alma na próxima caçada.


filmechocante

“Choque choque choque de amor, me dá um choque de amor…” Olha, tem uma semana que nós do Ameixa só ouvimos, cantamos e dançamos Choque de Amor, o maior sucesso da banda Chocante. Estamos falando grego? Gente, Chocante, a maior boyband brasileira de todos os tempos! Ainda assim, nada? Então vá ao cinema mais próximo para conferir o filme Chocante. Ninguém pediu, mas eles voltaram!

Criado a partir da idéia original de Pedro Neschling, com roteiro assinado por Bruno Mazzeo, Neschling, Luciana Fregolente e Rosana Ferrão, com direção de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, Chocante conta a história do reencontro de Téo (Bruno Mazzeo), Tim (Lúcio Mauro Filho), Clay (Marcus Majella) e Toni (Bruno Garcia), integrantes da boyband sucesso no começo dos anos 90 e que teve um fim inesperado deixando os fãs, principalmente Quézia (Debora Lamm), presidente do fã clube, inconformados. O retorno estrondoso inclui um novo integrante, Rod (Pedro Neschling) sob o comando do empresário Midas, Lessa (Tony Ramos, numa participação pra lá de inspirada).

A partir daí o filme faz uma sátira bem humorada do que foi a juventude brasileira no final dos anos 80, início dos 90, quando essa foi bombardeada dia sim e outro também por boybands com cantores pra lá de duvidosos que enlouqueciam as adolescentes e enriqueciam os cofres dos programas de auditório. E também com os jovens de hoje, as novas formas de interagir com os ídolos, realities shows decadentes e por aí vai. O único ponto em comum entre as gerações é que ainda para a grande maioria dos artistas falta talento, mas compensam no carisma.

O roteiro faz uma ponte inteligente sobre a geração que curtia os meninos da Chocante e a nova geração que nunca ouviu falar (exceto por algum pai saudosista). Os ‘feras das antigas’, como diria Rod, hoje vivem totalmente afastados dos holofotes. Com empregos frustrados, filhos para criarem e totalmente aéreos no que se referem às novas tecnologias, o retorno da banda pode ser um momento da redescoberta da amizade, fechar feridas e, claro, muita diversão. “Na verdade a gente sempre quis falar de amizade, de encontros, de acertar as contas com a vida. E tem também a questão da família. Fomos entendendo o que não era Chocante e fomos tirando”, explica Bruno Mazzeo.

A reconstituição de época também é um ponto alto do filme. As cenas da banda na juventude participando de programas de auditórios, camarins, quartos de hotéis dão o clima perfeito que o filme busca entre nostalgia e cafonice. Assim como a captação de imagens daquela época, que junto com o figurino de ‘palco’ da banda e a indumentária de Quézia mesmo nos dias atuais nos fazem lembrar que certas coisas devem permanecer no passado.

Chocante é um filme para se divertir e rir muito. Para os marmanjos, como nós do Ameixa, que vivemos com muita propriedade a invasão das boysbands nos anos 80 e 90, cada piadinha interna do filme era motivo para gargalhadas. Ativamos a memória e voltamos no tempo das horas dançantes, do Chacrinha, do Programa do Gugu, lembramos de amigos que nunca mais vimos e de  outros que insistem em apagar esses anos da história, bobos!

A mensagem de Chocante é que nenhuma geração foi tão cafona e tão divertida como a oitentista! Para entrarmos ainda mais no clima, criamos no Spotify uma playlist Top 10 boybands chocantes incluindo o sucesso Choque de Amor, para vocês também ficarem com esse chiclete martelando na cabeça.


mother!

A nova obra de Darren Aronofsky (Cisne Negro) que estréia hoje nos cinemas da capital, é uma viagem lisérgica audiovisual que mexe com todo o seu corpo. Passamos por uma experiência corporal, emocional sentados diante da tela. E por ser uma experiência só posso dizer da minha. Pois é complicado falar de mother! (o titulo é no diminutivo mesmo) sem soltar algum spoiler. Até porque é o tipo de filme que cada um terá a sua interpretação.

Não é de hoje que Aronofsky faz de cada filme seu ser um conjunto de sensações para o publico. Aquelas sensações que nos acompanham por diversos dias após a exibição. Ficamos procurando pontos narrativos para explicarmos a sua lógica. Embora ao final de mother! o diretor o finaliza praticamente da forma que começou: a sensação de uma virgula tal qual Aprendizado ou o Livro dos Prazer de Clarice Lispector. Ou seja: o que vimos vem de algo acontecido e que está longe de terminar. E sendo assim, o filme também termina com :

Darren Aronofsky não deu nome aos seus personagens. Pode ser qualquer. Pode ser eu, você, nós. Sendo assim, Jennifer Laurence é a “mother”, Javier Bardem é “him”. Ambos habitam a “house” que Jennifer Laurence reformou para que Javier encontre novamente inspirações para o seus poemas. Ah, sim “him” é um poeta conhecido e aclamado pela crítica e adorado pelos leitores.

A partir de agora o texto de mother!  dá lugar a minha experiência. O filme se divide em dois atos. E para mim ficou claro, ao sair da sala de cinema, que estávamos diante de uma leitura da criação do mundo. mother! pode ser Jennifer Laurence, como pode ser também a própria casa fincada numa natureza antes devastada pelo fogo. Talvez por isso mother! esteja no diminutivo. Pode ser aquilo que serve para abrigar algo. Não necessariamente mother precisa ser uma pessoa. Pode ser a casa, pode ser um desejo, pode ser o meio de conseguir alguma coisa. É onde se alimentará e crescerá a obra final.

A câmera inquieta acompanha o calvário de Jennifer Laurence por todos os cômodos da casa. É a visão feminina de sua personagem que nos serve como guia e como testemunha de tudo que irá acontecer. As cores que ela enxerga são escuras, opacas, mesmo que por inúmeras tentativas, ela esteja sempre querendo colocar cor a esse microcosmo. É uma visão turva para um olhar único sobre os fatos.

No primeiro ato temos Jennifer Laurence (e em todo o filme) como nossos olhos. E ela observa espantada, inquieta, inconformada a criação do mundo. “Him” abriga do nada em sua casa Ed Harris, o “man” e sua esposa Michele Pffeifer, a “wonan”. Figuras lascivas, invasoras. Adão e a serpente. Adiante a casa também abriga os filhos de “man” e “wonan”. Uma teatralização de Caim e Abel. A alegoria religiosa proposto por Aronofsky não é explicita. Precisamos seguir adinate para compreender as coisas.

No segundo ato instaura-se o caos! A alegoria das religiões fundamentalistas, da obsessão pelo culto, pelo Criador e pela criatura que está por chegar. Não temos mais o “man” e a “wonan”. Mesmo que você fica esperando os seus retornos é no final que você entende que tais figuras foram importantes na Criação. Agora é a humanidade vinda deles que comandam o show.

A partir do caos o filme te sufoca sem dó. Cada sequência é um incomodo e uma certeza: estamos diante de nossos tempos. Uma crítica social elevada à décima potencia sobre invasão de privacidade, o culto às celebridades, a destruição da mãe natureza e a fé cega materializada na figura de um poeta.

Cria-se  uma histeria coletiva em torno da magia de “him” e sobre o que ele prega. Seria “him” o Deus onipresente. O que tudo vê? Aquele que observa e absorve. Aquele que a todo instante precisa de incentivos criativos para as suas obras? Aquele que faz nascer e depois cria, alimenta, sustenta, mata e recomeça?

Enfim, mother! definitivamente não é um filme para se ver apenas uma vez. Passado o primeiro susto é preciso voltar para dentro daquela casa viva e caminhar novamente com os olhos de Jennifer Laurence à procura de novas nuances, algo que ficou imperceptível e que talvez mude por completo a experiência e recomeçamos a construir um novo abrigo para as novas sensações. Bravo Darren Aronofsky!