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Todo mundo já percebeu esse boom gastronômico que estamos vivendo, num é? Nunca se falou tanto de culinária como agora. Já reparou que a seção das livrarias dedicadas ao tema só tem crescido? E o tanto de programas televisivos? Todos os canais sejam eles abertos ou fechados estão dedicando nem que seja meia hora de sua programação à gastronomia. Mas qual a razão de tudo isso? Seria apenas um interesse dessa geração acostumada com o excesso de informação? Uma onda passageira? Um modismo? Bom, pode ser um pouco de tudo isso, ou nada disso.

Com tudo, acredito que tenha algo que seja comum a todos que estão vivenciando esse momento: resgate. Estamos todos tentando resgatar algo que nos foi tirado, ou esquecido, ou deixado de lado: o prazer de pertencer ao espaço da cozinha e o prazer de servir ou ser servido com algo que desperte sensações e lembranças. Gastronomia nada mais é que isso! Uma mistura de aromas, texturas e sabores que nos remete a algo íntimo e que desperta sensações prazerosas. O poder das combinações. Química. Mágica. Arte. Amor!

Para deixar mais claro do que se trata temos que voltar no tempo. No final dos anos 40 e começo da década de 50, as mulheres saíram de suas casas e começaram a se fazer notáveis num mundo (ainda) patriarcal. A casa, a cozinha, não eram mais os únicos espaços que elas poderiam e deveriam ocupar. A indústria alimentícia logo tratou de resolver um problema: “e agora quem cozinha?” Ninguém mais! A comida já vem pronta. E com isso damos início ao processo que chega ao seu ápice nesse presente: fast foods, todo e qualquer tipo de comida congelada, disk alguma coisa, microondas e toda gama de tecnologia que nos faz ganhar um tempo em cima de um tempo que não temos mais e transformando a cozinha, num simples objeto decorativo. Assim perdemos as referências culturais, familiares e sociais.

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Criou-se um vazio à mesa. Ninguém mais senta-se à mesa para se perder um tempo junto a alguém ou até consigo mesmo. É aí que começa essa retomada da gastronomia. Um grito de que: queremos voltar ao convívio! Técnicas culinárias são importantes, sim, claro. Mas não são tudo. Para mim, enquanto chef e para tantos outros precisamos delas. Mas na minha cozinha pessoal, na sua cozinha, elas são o de menos. Ali o que vale são outras coisas. Dando alguns exemplos: sabe aquele engrossado que fazemos com um pouco de farinha e manteiga? Então, como técnica o chamam de roux (rú). Ou quando a frigideira fica toda suja depois de fazermos uma carne e daí colocamos um pouco de água, ou vinho e fazemos um molhinho. Tecnicamente falando você fez uma redução. Enfim… termos e nada mais que isso.

Mas o que está nos levando novamente às nossas cozinhas é um dos nossos atos mais primitivos: fazer e servir. Botar naquela comida além de todos os ingredientes necessários uma pitada de sabedoria, uma colher de amor, uma xícara de boas energias. Levar isso à mesa, sentar, degustar, conversar, externar e introspectar. O seu churrasco de final de semana é outro exemplo de resgate primitivo. Os nativos iam à caça (em muitas culturas isso cabia às mulheres!) traziam a carne, faziam o fogo e num gesto de respeito ao animal abatido ficavam todos em volta da fogueira para esperar o alimento e, muito mais que isso, tinham todo o tempo daquele cozimento para ficarem próximos uns aos outros.

Então o meu convite com esse texto é que sejamos mais primitivos. Quando falamos de culinária, por favor! Invada a sua cozinha e prepare o melhor prato para a sua família, seus amigos, para você! Convide todos à mesa. Olhem uns nos olhos dos outros. Pergunte da vida, das alegrias, dos problemas. Entre uma garfada e outra, demonstre interesse, acolhimento. Esqueça-se do tempo. Primitivamente o tempo é seu aliado. Sirva-se dele.

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Nos últimos tempos o mundo tem vivido uma relação muito próxima com a comida. A crescente exibição de programas sobre culinária e a grande procura por cursos de gastronomia, tem levado várias pessoas a se tornarem chefes, escreverem sobre o assunto, lançarem livros, criarem blogs etc. Tudo isso é muito válido, porém no meio dessa grande manifestação em torno da arte de cozinhar, tem surgido também um movimento de desenvolver realmente o gosto por preparar sua própria comida.

É importante perceber a sutil diferença entre fazer um risoto para os amigos uma vez por mês e realmente desenvolver um gosto por cozinhar. Todos nós temos algum tipo de referência ligada à cozinha, à comida, seja a lasanha que avó italiana preparava aos domingos ou o frango com quiabo que comemos na casa das nossas mães.

Essa relação é muito forte e nos liga às lembranças de uma infância feliz ou a momentos de intenso prazer em família. O jornalista e professor, Michael Pollan, aborda no seu documentário Cooked, que depois da terceirização da comida e da industrialização estamos perdendo essas referências. O escritor chama a atenção para o fato das pessoas se afastaram de alguns hábitos alimentares, como comer carne por exemplo, simplesmente porque elas estão ingerindo apenas produtos processados. Não podemos dizer que estamos comendo carne de verdade se comemos nuggets, certo?

No Brasil, tenho acompanhado esse movimento na busca da alimentação mais saudável. A apresentadora do programa Cozinha Prática do canal GNT, Rita Lobo, é uma das que mais me chama atenção. Ela realmente ensina as pessoas a cozinharem, a preparar um alimento saudável. Quem já assistiu o programa dela sobre preparar arroz soltinho? Sempre acho graça quando ela fala “desgourmetiza, bem!”. Além do programa, recentemente o site Panelinha, do qual a apresentadora faz parte, lançou um blog para tratar de comida saudável. No texto de abertura já traz a mensagem: comer saudável não é apenas comer frango grelhado com batata doce! Entende a diferença?

Nos últimos tempos tenho adorado ir para cozinha e preparar pratos típicos da culinária mineira como um frango com quiabo, arroz, feijão e angú, seguindo a receita maravilhosa da minha mãe ou um tutu de feijão com macarronada….é gordo né? Sim, mas é tão gostoso!

Percebo esse movimento em torno de fazer a própria comida como uma tendência mundial. O homem está retornando alguns hábitos antigos porque nessa loucura do mundo moderno nós perdemos várias referências que eram positivas. Então, isso vem de encontro a mudanças que já estão acontecendo como largar o carro e andar de bicicleta, ter um consumo mais consciente, parar de ingerir só alimentos industrializados.

Então, porque não tentar? Ao invés de almoçar aos domingos num self-service porque não fazer sua própria lasanha à bolonhesa? E que tal experimentar fazer aquele frango assado maravilhoso da sua mãe? Afinal, a cozinha não é um monstro e não precisamos preparar apenas pratos mega elaborados, nem ter equipamentos de última geração, nem comprar aquele ingrediente exótico que só tem no supermercado mais caro da cidade. Cozinhar é terapia, é amor, faz parte da nossa vida.

 

 

Saiba mais e assista:

www.panelinha.com.br - site da Rita Lobo

Cozinha Prática - Rita Lobo (canal GNT)

Cooked – documentário de Michael Pollan baseado no livro “Cozinhar, uma história natural da transformação”. (disponível no Netflix)

Cozinheiros em Ação - Reality do GNT com cozinheiros
Por Fran Dornelas