uma_mulher_fantastica3

*Por: Maria Inácia Nascimento

Estréia, no próximo dia 7,“Uma Mulher Fantástica”, de Sebastian Lelio (Gloria/2013). O longa chileno (1h44) já aterrissa em solo brasileiro com dois prêmios conquistados em Berlim – Teddy Award, de melhor filme LGBT e o Urso de Prata, para melhor roteiro. O filme conta a saga de uma mulher transexual que para se despedir de seu companheiro que sofre uma morte súbita, encontra os entraves diante de uma sociedade que ainda não aceita as diversidades.

A narrativa de Uma Mulher Fantástica começa um pouco lenta, demora a prender o expectador. Sua trilha também não traz nada muito especial – exceto pelas cenas em que a personagem principal Marina Vidal (Daniela Veja) nos encanta com seu timbre lírico. Sua primeira aparição na telona ainda é tímida e discreta, cantando em um bar. Mas, será no decorrer das cenas e das situações em que vive diariamente, que sua garra, coragem e determinação se destacam e conquistam.

Marina  é uma garçonete e aspirante a cantora. Tem poucos amigos e um relacionamento sério com Orlando (Francisco Reyes). Depois de comemorarem o aniversário dela e planejarem uma viagem romântica juntos, o namorado sofre um aneurisma e morre no hospital. A partir deste dia, a vida de Marina é completamente abalada. Ela sofre humilhações e precisa lidar com o ódio e as desconfianças da família de Orlando, da polícia e até dos médicos que o atenderam naquela noite.

As cenas são chocantes e revoltantes como, por exemplo, quando o filho do namorado a pressiona para saber se ela realizou a cirurgia de mudança de sexo. Ou quando o médico não sabe como a chama e pergunta se Marina seria apenas um apelido. Na delegacia, ela passa por uma constrangedora revista. E, ainda, vive embates com a ex-esposa de Orlando, que a denomina aberração e quimera.

uma_mulher_fantastica4

A atriz transexual Daniela Vega interpreta com dignidade e segurança. De maneira linear, ela nos surpreende positivamente nos momentos mais complexos e que requerem maior frieza. Lelio, por sua vez, conduz o tema de maneira delicada, criando diálogos intensos e sufocantes.

Fica difícil engolir a realidade agressiva vivida por tantas Marinas. Dentre as cenas fortes de humilhações e perseguições, o filme deixa a mensagem de perseverança e resiliência incansáveis dos transexuais. A sensação, ao sair da sala de cinema, é a de que precisamos falar sobre Marina.

Um pouco mais de:
Sebastián Lelio: Gloria (2013); La Sagrada Familia (2005).
Daniela Vega: La Visita (2014).
Temas Relacionados: Tomboy (2011); Transamérica (2004); Clube de Compras Dallas (2013).


o-castelo-de-vidro-ameixa-japonesa2

O filme é baseado na história de vida de Jeannette Walls, jornalista norte-americana, retratada no livro homônimo e campeão de vendas pelo mundo. A história da família Walls é grandiosamente representada por um elenco campeão de premiações como Brie Larson, Woddy Harrelson, Naomi Watts e outros.

Um drama da vida real mostra a conturbada família Walls. Família pobre, com muitos filhos, muitos sonhos e uma realidade aventureira. Esta aventura se dá pela falta de dinheiro e pelo objetivo de que no final a família terá um castelo de vidro, idealizado por todos. Por consequência, a família tinha que se mudar e adaptar aos novos lares, novos povos e realidades duras para os adultos e divertidas para a crianças.

A dificuldade de instalar num lugar, leva a família a passar ensinamentos de experiência de vida aos filhos. As cenas bem dirigidas com o patriarca ensinando os porquês das coisas, dando aos filhos um mundo de sonhos e conhecimentos é de engolir seco. Faz com eles se sintam normais e mais unidos. Entretanto, na medida que os filhos vão crescendo e vendo que aquela vida não é a dita como normal, tem reflexo nos seus objetivo e nas situações adultas. Mesmo com momentos lindos de ensinamentos, a forma controversa de educar, de modo até violento, muda o destino da família.

A vértebra do filme é a saída do castelo de vidro dos papéis para a realidade. A família acreditar que este objetivo é o que os manterão unidos, pode não ser suficiente. Mesmo que o seja, não é fácil aceitá-la quando a Jeannete tem que conviver fora daquela realidade e esconder suas raízes. Estas relações familiares devem ser conferidas nas telonas.

O castelo como símbolo de união serve para mostrar para o espectador que toda família tem sua casa de vidro. Ela pode ser opaca, cristalina, suja, e as vezes nem existir. Mas estas paredes, este castelo, mostram que por mais diferente é a sua família, sempre pertencemos a ela. Pode tentar fugir, mentir, porém não adiantará.

É isto que torna o filme lindo. Firme. Chocante e emocionante. Daqueles que você sai do cinema envergonhado de tanto chorar. E o melhor, com a sensação que mesmo tendo uma família diferente, e de difícil convivência, ela é sua. Tem seu lado bom. Nunca deve ser esquecido. Você é uma das paredes de um castelo de vidro. Sem você ela não se torna um castelo.

Não deixem de se emocionar com o filme O castelo de Vidro, nos principais cinemas de sua cidade, a partir de HOJE, 24 de agosto!


O filme brasileiro mais esperado ano, Bingo – O Rei Das Manhãs, veio para conquistar corações dos amantes dos anos 80. Arrisco a dizer que não só de quem viveu naquela época. Chega, ainda, para mostrar, também, os áureos tempos das manhãs infantis nas telinhas brasileiras. E claro, a maior referência do filme, o palhaço Bozo. Não pense que o filme se resume a isto. Ele vai além. E até mesmo quem tem medo de palhaços pode assistir, porque vale a pena.

bingo-o-rei-das-manhas

Vladmir Brichta (em seu melhor papel), dá vida a história de uma ator que resolve tentar ser reconhecido no seu trabalho. Seu grande foco é dar orgulho ao seu filho e a mãe, também atriz. Sabendo do seu potencial de fazer as pessoas rirem, Augusto tenta um espaço na televisão.

Tentar algo maior e um espaço na empresa de televisão dominante na casa dos brasileiros, ser rejeitado por seus maiorais, fazem com que o Augusto procure em outra emissora uma oportunidade para mostrar seu potencial. Um teste para um palhaço de formato pronto da TV americana, é o que ele precisa e confia para dar a volta por cima. Suas espertezas em improvisos fazem com que ele conquiste a oportunidade de ser o apresentador engessado tão famoso nas telinhas de lá.

Augusto sai do roteiro na tentativa fazer aquele sucesso norte-americano ser um sucesso brasileiro. O sair do roteiro vai além das câmeras. A sua vida também sai. Isto torna o filme envolvente. A fama e o reconhecimento levam o personagem principal a perder os trilhos. Aquele ator mascarado que muda a maneira de ver um programa televisivo, se deixa levar por uma vida e autoconfiança que causa outra reviravolta.
bingo-o-rei-das-manhas-2

Um filme quando é bem conduzido nos faz pensar. Seria esta reviravolta na vida do Augusto uma coisa normal da época? Aquele personagem era apenas um muro da sua real personalidade? Seriam os dois parecidos? Ou seria o conflito do personagem ser maior que o ator por trás de um nariz de palhaço? Bem, as respostas destas e outras, e se teve ou não um final feliz, deixarei para que cada um pense a vontade após assistirem o filme.

Um receita boa, sempre infalível, é a vida pessoal de um artista famoso com seus altos e baixos. Isto é perfeitamente tratado em prato cheio. Outros grandes destaques é a direção peculiar e incrível do Daniel Rezende, e a atuação de outra estrela Leandra Leal. O fato de ser uma biografia baseada em história real de Arlindo Barreto (o primeiro ator que viveu Bozo no Brasil) brilha ainda mais aos nossos olhos.

Bingo é um filme redondo. Excelente atuações, excelente história, excelentes atuações (são de aplaudir no fim do filme). É um filme que te deixa nostálgico, curioso, provoca boas risadas e o mais legal: deixa-nos emocionado.

De uma coisa é certa, ao sair dos cinemas após assistir a historia do ator por trás do palhaço Bingo, além da sensação de ter visto um ótimo filme brasileiro, tenho certeza que a curiosidade de ver vídeos antigos do palhaço, rei das manhãs, será inevitável.

Por Flávio Henrique

Bingo: O Rei Das Manhãs, estreia 24 de agosto de 2017 nos principais cinemas.


o-estranho-que-amamos-ameixa-japonesa

A grande estréia nos cinemas nessa semana é, sem dúvidas, o novo trabalho de Sofia Coppola, “O Estranho Que Nós Amamos”. Baseado no livro homônimo de Thomas Cullinan, escrito em 1966, o filme chega às telas de BH premiado com a melhor direção em Cannes 2017. E com um elenco que chama a atenção para si: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e Colin Farrell.

Os filmes de Sofia Coppola são conhecidos e lembrados por colocarem em todos eles o olhar feminino sobre as situações em, sua maioria, sendo os papeis femininos os responsáveis por nos guiarem pela narrativa. Em “ O Estranho Que Nós Amamos” não é diferente. A diretora inverte a narrativa do livro e da primeira versão para o cinema de 1971 que é feita pelo soldado abatido e coloca as mulheres como narradoras da história. Mais uma vez é o olhar feminino de Sofia e de suas personagens os responsáveis pelas sensações passadas.

A história se passa em durante a Guerra Civil americana e vemos o dia a dia pra lá de bucólico e rotineiro de uma “escola para meninas”, situada no sul do país, ser gradativamente alterado com a chegada do estranho e instigante soldado ferido, que defendia os interesses do norte do país. A guerra serve de pano de fundo para a formação de uma atormentada bola de neve de tensão sexual entre essas mulheres e o soldado.

o-estranho-que-amamos-ameixa-japonesa-01

Impressões de Pierre Menezes sobre o filme…

Para quem está acostumado com o ritmo mais acelerado e uma extensa paleta de cores presentes nos outros filmes de Sofia Coppola, chega a ficar incomodado com a direção tomada nesse novo projeto. Tudo em “O Estranho Que Nós Amamos” é mais lento, demorado, contido. O recurso de pouca luz do casarão dita o clima que a diretora quer expressar. Com isso a fotografia do filme é espetacular e merece todos os elogios já recebidos.

Porém o roteiro (estou até agora pensando se gostei realmente do filme ou apenas em parte) demora a acontecer. O clímax do filme ocorre apenas nos últimos 20 minutos, o que leva ao incomodo mais pela demora dos acontecimentos do que pela adrenalina psicológica sexual que o filme pretende passar.

Essa tensão está lá o tempo todo. Seja pelo comportamento alterado dessas mulheres, pelas reais intenções do homem que aos poucos vai mudando a rotina pudica tanto das mulheres mais velhas, quanto das internas mais novas. Mas a curiosidade pelo que vai acontecer aos poucos vai sumindo devido a essa demora aos acontecimentos. Há uma repetição de situações desnecessária.

A direção precisa e ao mesmo tempo delicada de Sofia Coppola e as interpretações na dose certa de contenção e explosão do quarteto principal fazem de “O Estranho Que Nós Amamos” uma boa experiência de reflexão sobre os desejos repreendidos e as consequências das não realizações dos mesmos.

o-estranho-que-amamos-ameixa-japonesa-02

Flávio Henrique também conta suas impressões…

Escuro e lento é o que define o filme. Uma história tão interessante deveria ser retratada da mesma forma. Todo o alvoroço de um homem chegando numa casa com sete mulheres, eu esperava mais afrontas diretas entre elas. Por estar em uma crescente, as mudanças nas relações foram apresentadas sutilmente. Se apresentadas ao contrário, estas mudanças (com tretas mais evidentes e dramáticas) deixaria o filme mais empolgante no seu percurso.

No ápice do filme não ficaram claras as intenções das mulheres para com o hóspede na reviravolta final. Vingança, ou necessidade nestas intenções, para mim, ficaram escuras e indiretas como boa parte do filme. Fez-me avaliar o filme apenas como um filme mediano.

Confira o trailer!


UNTITLED JOHN WELLS PROJECT

Pegando Fogo trás um Bradley Cooper numa versão cinematográfica de Hell’s Kitchen

Nunca se falou tanto em gastronomia no Brasil como agora. Tamanho boom pode ser visto pelos inúmeros de programas do gênero na TV, lido pelas centenas de publicações dedicadas à boa comida e vivenciado pela cartela de opções de cursos que temos por aí. Talvez por isso, Pegando Fogo (Burnt), que estreia hoje nos cinemas, caia como uma luva no paladar gosto do público.

No filme, Bradley Cooper vive o arrogante e invejável chef de cozinha, Adam Jones, que no passado viu a sua fama e credibilidade irem pelo ralo devido ao seu temperamento e ao uso de drogas. Agora, o chef corre atrás do tempo perdido, mas para isso deve reencontrar com o seu passado e ir atrás da tão sonhada, por todos os chefs, 3 estrelas do guia Michelin.

Na primeira parte de Pegando Fogo, você tem a sensação de que “já vi isso em algum lugar”. E você não está enganado. Adam Jones é a representação de um estilo de chef que a mídia impôs ao nosso dia a dia. O chef carrasco, imortalizado por Gordon Ramsay e seu Hell’s Kitchen. Como entretenimento essa tipo de personalidade dentro de uma cozinha é um deleite para olhos de quem assiste. Mas não se enganem a realidade é completamente diferente. Ela se aproxima do que se torna Adam Jones no decorrer das ações que o filme apresenta.

Pegando Fogo é como uma degustação à la carte. De cara você olha o cardápio e se estranha um pouco com aquela explosão de sugestões. Mas quando as guarnições começam a ser servidas vamos nos ambientando com aquela proposta sugerida pelo chef, neste caso, do diretor John Wells, que vai desconstruindo e reconstruindo o personagem de Bradley para que possa ser degustado pelo público.  Para contrabalancear tamanha arrogância do seu personagem principal, o filme está cercado por personagens secundários pra lá de cativantes e não menos interessantes.

UNTITLED JOHN WELLS PROJECT

Bradley Cooper pode até ser o queridinho do momento em Hollywood, mas sempre o vejo ligado no automático e seus personagens nada são do que a continuação de outro que ficou no passado. Porém, consegue segurar as rédeas das ações e momento algum deixa de ser o fio condutor do arco narrativo. E, claro, conta com a ajuda de uma inspirada Sienna Miller, fazendo Helene,  uma sous chef que não fica em nada atrás do seu mentor. Daniel Brühl, como Tony, um maitre e pau para toda obra para as loucuras de Adam e  Emma Thompson, responsável por colocar os fantasmas de Adam Jones em seus devidos lugares. Não podemos esquecer  da aparição relâmpago de Uma Thurman, fazendo uma respeitada crítica gastronômica, que deixa um gostinho de quero mais.

Pegando Fogo tem todos os elementos para ser uma diversão num final de tarde. É leve, com um humor londrino e carregado de emoção nas doses certas. Vá bem alimentado se não quiser ficar salivando durante o filme. Os pratos que passeiam pela história são a cereja do bolo. A sobremesa que fecha com chave de ouro qualquer degustação.

Por Pierre Menezes, Jornalista e Chef de Cozinha viciado em cultura pop.