barbaensopadadesangue

O nosso livro da semana é o romance de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue, lançado pela Companhia das Letras, em 2012. Misturando ternura e uma boa dose de violência, o livro é um mergulho em nossas pulsões mais primitivas e uma investigação sobre a origem insuspeita dos mitos da vida comum, alicerçados em amores perdidos, conflitos familiares, segredos inconfessos e nas dificuldades que enfrentamos para entender e reconhecer os outros.

Na história de Barba Ensopada de Sangue acompanhamos um professor de educação física apaixonado por natação que se muda para uma cidadezinha no litoral de Santa Catarina. Ele está em busca de recolhimento e solidão para elaborar a morte do pai e se afastar de um momento familiar conturbado. Mas também quer compreender o que está por trás do mistério envolvendo a morte do avô.

Alternando descrições cheias de minúcias, mas nunca documentais, e demonstrações de um ouvido apurado para diálogos, Daniel Galera trabalha com habilidade a tensão entre o tom contemplativo do mundo exterior e a ebulição interna dos personagens. Como em outras obras do autor, os personagens de Barba Ensopada de Sangue parecem dilacerados entre a busca de uma segunda chance e a impossibilidade de uma redenção genuína.

Sobre o Autor

Gabriel Galera nasceu em São Paulo em 1979, mas passou maior parte da vida em Porto Alegre. É escritor, tradutor e um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual lançou seu livro de estréia, Dentes Guardados (2001), e a primeira edição de Até O Dia Em Que O Cão Morreu (2003), adaptado para o cinema em 2007 e reeditado pela Companhia das Letras. Pela editora, lançou também Mãos de Cavalo (2006), Cordilheira (2008 – vencedor do prêmio Machado de Assis de romance) e o álbum em quadrinhos Cachalote (2010) e Meia-Noite E Vinte (2016). Teve os direitos dos seus livros vendidos para Inglaterra, Estados Unidos, França, Itália, Argentina, Portugal, Romênia e Holanda.

Barba Ensopada de Sangue
Gabriel Galera
Companhia das Letras


americanahlivro

Vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros de 2013 pelo The New York Times Book Review, Americanah, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie é daqueles livros de leitura necessária e imprescindível para entender o momento social e o porquê de seu surgimento.

Chimamanda faz de Americanah uma obra ao mesmo tempo sendo um romance com tudo que esperamos e crítica social. O seu olhar para a questão racial torna o livro urgente e extremamente importante. Ela parte de uma história de amor arrebatadora para debater questões atuais e universais como imigração, racismo e desigualdade de gênero.

Bem-humorado, sagaz e implacável, conjugando o melhor dos grandes romances e da crítica social, Americanah, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é um épico da contemporaneidade!

Sobre a autora

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. É autora dos romances Meio sol amarelo (2008)  – vencedor do Orange Prize, adaptado para o cinema em 2013 – , Hibisco roxo (2011) e Sejamos todos feministas (2015), todos publicados no Brasil. Assina ainda uma coleção de contos, The Thing Around Your Neck (2009). Sua obra foi traduzida para mais de trinta línguas e apareceu em inúmeros periódicos, como as revistas New Yorker e Granta. Depois de ter recebido uma bolsa da MacArthur Foundation, Chimamanda vive entre a Nigéria e os EUA. Sua célebre conferencia no TED já teve mais de 1 milhão de visualizações (contando..). Americanah teve os direitos para o cinema comprados por Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz por Doze anos de escravidão.

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
Companhia das Letras


livro_segredosdoreino

“Há peças demais no xadrez. É hora de chacoalhar o tabuleiro” (Reis Clausius)

A saga “Segredos do Reino”, primeiro livro do escritor Lucas Hargreaves, traz consigo diversas vertentes, embora todas interligadas por um único personagem: o rei Clausius. Principal regente e autoridade máxima do reino de Merquillian, o monarca, por detrás de toda sua simpatia, pompa e circunstância, está muito aquém da imagem que os cidadãos possuem dele.

Entretanto, certo dia, o tabuleiro decide virar contra o rei, que se vê ameaçado diante das circunstâncias que o cercam. Em outras palavras, sua máscara está prestes a ser arrancada, dessa vez por sua sobrinha, Clarissa, a princesa do reino, e por Miguel, um desastrado comerciante que sempre está no lugar e na hora errada.

Certamente que o embate tomará proporções catastróficas, envolvendo mais pessoas do que o esperado. De um lado, a minoria, contra o rei, de outro, o mal em sua mais poderosa forma. Mas, ao que parece, a guerra está apenas começando, e você, como leitor, acompanhará com riqueza de detalhes as surpresas do enredo, além de desvendar, pouco a pouco, as artimanhas de Clausius, que até então, eram segredos do reino. Mas isso não acontecerá em apenas um livro, ou dois. Pode ter certeza…

Sobre o Autor

Desde cedo, escrever e criar sempre foram os verbos e hobbies preferidos de Lucas Hargreaves. Nascido em Brasília em 1991, o autor foi criado e reside em Belo Horizonte. Formou-se em Publicidade e Propaganda pela universidade PUC-MG, e possui experiência em Marketing, Mídias Sociais e Design Gráfico. Para o autor de Segredos do Reino, a leitura e a escrita se completam como inesgotáveis fontes de conhecimento, diversão e fantasia.

Segredos do Reino
Autor: Lucas Hargreaves
Editora:
Novo Século Editora
2015
(Coleção Talentos da Literatura Brasileira)


tarde-palavra

Oferecer uma pausa para se distanciar da correria da semana e se aproximar dos prazeres que alimentam a alma. Foi a partir desta proposta que a Inventiva – Sorvetes com Imaginação – se uniu à Evas – Experimentações Verdes Afetivas -, para criar o Palavra Paladar, evento que acontece no dia 11 de setembro a partir das 15 horas na sorveteria localizada na regional leste da cidade (Rua Grão Pará, 553).

Em comum, ambas as marcas se utilizam de inspirações poéticas e cotidianas para desenvolver seus produtos, preservando as características artesanais em todas as etapas da produção. A Inventiva Sorvetes elabora os sabores de seus gelatos sempre com a intenção de conduzir o cliente a uma experiência sensorial. Já a Evas tem como premissa o uso das técnicas da jardinagem e do paisagismo acessível, unindo-os ao reaproveitamento de material, à palavra e ao uso de estêncil e ilustrações. Um de seus produtos são os vasos produzidos com latas reaproveitáveis onde são aplicados estêncil e ilustrações que remetem a obras literárias, ícones da música e cenas nacionais.

O evento homenageia a poesia e a literatura, tendo o poeta Manoel de Barros como o representante dessa categoria literária. Assim, os sorvetes foram rebatizados: ao pedir um sorvete de flocos, o cliente vai saborear “o sorvete para comer formiguinhas”, por exemplo. “Todos os detalhes foram pensados para transportar o visitante para um lugar mais acolhedor, longe do estresse que nos cerca as atividades diárias”, afirma Carlos Sia, sócio-fundador da Inventiva.

O ambiente receberá um móbile literário produzido pela designer e parceira Dea Souza. No objeto, fragmentos de frases suspensas do poeta mato-grossense ganham novas composições de acordo com os arranjos de quem com ele interage. Por fim, Evas vai expor e vender seus vasos poéticos, que recebem ilustrações inspiradas nos desenhos produzidos por Manoel. Haverá plantio ao vivo, bem ao estilo do já muito difundido live painting, ou seja, os vasos serão montados no ambiente da sorveteria para que o cliente possa participar do processo e escolher a planta e o desenho que deseja levar para casa.

Sobre a Inventiva Sorvetes com Imaginação

Inaugurada em 2010, no bairro Santa Efigênia, zona leste de Belo Horizonte pelo designer Carlos Sia e Teresa Sia, a Inventiva desenvolve seus produtos de um modo conectado às tendências gastronômicas. Entre os diferenciais dos já reconhecidos sabores desenvolvidos, ressalta-se o uso do creme de leite fresco ao invés da gordura hidrogenada, comumente utilizada na produção de sorvetes.

O espaço não se limita à venda e já produziu outros eventos, sempre em parcerias com marcas ou pessoas ligadas à criatividade, caso do “Living Painting” da fachada da loja criada pelos designers do coletivo Vorko e o “Tarde Efigênia” que articulou sorvete, fotografia e tramas em torno de questões ligadas ao bairro Santa Efigênia a partir do trabalho da designer Dea Souza e da crocheteira Marcela Melo.

A elaboração dos produtos é pensada como uma narrativa, que pode ser articulada por meio dos sabores.  Para o inverno, por exemplo, os sócios focaram no desenvolvimento de sabores que utilizam ingredientes do universo das quitandas mineiras. Assim, sabores como bolo com café e casadinho podem ser apreciados.

Sobre Evas

 

Evas surgiu em 2014 como resultado da união da paisagista Carolina Cabral e da jornalista Valéria Prochnow. No ano seguinte, a artista Angélica Sant’Ana e a psicóloga Izabela Beraldo completaram o coletivo. A proposta de Evas é desenvolver produtos que articulam o micro paisagismo a soluções sustentáveis e criativas. Para tanto, todos os objetos são produzidos artesanalmente, sempre com o uso de pinturas, desenhos e da palavra.

A marca desenvolve linhas personalizadas para batizados, casamentos, aniversários e outros eventos comemorativos. Além da produção dos produtos, o coletivo se encarrega da produção dos textos, feitos a partir da história dos personagens que darão e receberão os presentes.

 

 

Serviço:

Tarde Palavra Paladar

Data: 11 de setembro

Período: das 15h às 20h

Endereço: Rua Grão Pará, 553 – Santa Efigênia 


marcela_dantes_bhMarcela Dantés, autora do livro de contos Sobre pessoas normais (Patuá, 2016)

 

Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986. É formada em Comunicação Social pela UFMG e atuou por cinco anos como redatora publicitária, até descobrir  que prefere as palavras na literatura. Já alimentou e assassinou alguns blogs e cultiva em segredo uma pasta digital gorda de contos e outros rabiscos. Sobre Pessoas Normais é seu primeiro livro. O lançamento acontece amanhã (19.05) na Casa Ateliê.

Leia um dos contos de “Sobre Pessoas Normais” que está disponível site da editora Patuá e depois me digam se gostaram. Eu adorei!

 

O PÓ
Abriu os olhos com dificuldade, alguma coisa queimava lá dentro, como quando ainda era criança e faziam guerra de areia no parque da escola, há tanto, há muito tempo. Anos e anos de uma vida que, colocada em balanço, tinha sido boa. Só via o céu, cinza-azul com nuvens gordas, tudo muito estranho porque sua cama ficava em casa e lá sempre houvera um teto, branco, cimento, cal e todas as certezas do mundo. Nunca o céu. O corpo queimava, também, e doía todo ele. O máximo de movimento que conseguiu foi um leve girar de pescoço, pra esquerda, que o permitiu ver um chão sujo, imundo, puro pó e entulho. Devia ser um pesadelo, melhor, logo estaria de novo em casa, com cama e teto e os olhos bem abertos, se assim o quisesse, sem areia e sem dor. Daquele ângulo não via muito além do chão, pedaços de coisas que antes não eram pedaços e, lá no fundo, caminhando em sua direção, um rinoceronte. Sonho ruim. Se aproximava em passos lentos, mas mesmo os passos lentos de um rinoceronte são muito rápidos e ameaçadores para um homem pequeno como ele. Se não tivesse tanta certeza de que estava dormindo, teria se desesperado. Como acordaria em breve, entretanto, ficou ali parado, curtindo a dor e tentando entender o que aquele sonho ruim queria significar, ainda mais agora.
Se acostuma rápido com a dor, foi assim desde menino (a época da areia), e eis que hoje lhe serviria para alguma coisa – sempre soube que é preciso movimento pra despertar dos sonhos. Levantaria logo, não por medo do rinoceronte, é óbvio, mas pra começar a resolver as coisas e deixar o inconsciente em seu devido lugar. Começou mexendo outra vez o pescoço, da esquerda para a direita e depois no outro sentido: queixo no céu, queixo no peito. Pra acordar a coluna, sugerir que movimentos maiores estavam por chegar, pra voltar pro corpo. Queixo no peito e ali achou sangue. Ou qualquer outra coisa vermelha e escura, maquiagem onírica, mas a dor indicava que sangue era a opção mais plausível. Não era muito, mas a mancha crescia, uma crosta grudenta na altura do peito. Se fosse sangue, prudente estancar. Foi quando tentou usar a mão direita para pressionar a carne, mas por mais que o cérebro mandasse, o braço não obedecia. Pescoço para a direita e a história ficando cada vez mais surreal. O antebraço coberto por um tronco enorme, árvore caída com outros destroços e ele já nem sabia mais se doía. Tentou mexer os dedos da mão, cerrar o punho, qualquer coisa só pra saber que ainda estava no controle. Nada, talvez não houvesse mais dedos, mas dali era impossível saber. Na esquerda, o rinoceronte ocupando boa parte do seu campo de visão, as patas enormes, o chifre arranhando o céu, ele também com a sua própria mancha vermelha. Naquele sonho, cada um tinha a sua. Precisou que alguém gritasse para que ele se lembrasse que tinha ouvidos e que eles funcionavam, já havia se acostumado à paisagem sonora desde quando ainda tinha os olhos fechados. O grito veio da única direção pra onde ele não podia olhar, imobilizado pela dor e pela árvore, só podia saber que tinha alguém bem perto, às suas costas. Foi um grito caótico, sem ritmo, profundo. Talvez um pouco desesperado, não parecia ter outro objetivo além de traduzir ou reproduzir o pânico. Talvez o dono da voz, que parecia uma mulher, tivesse visto também o mamífero improvável que agora estava imóvel, os olhos no sol. Como se a pessoa, que era de fato uma mulher, ainda não tivesse entendido que era só um sonho ruim. Tentou responder, pedir ajudar pra rolar aquele tronco, aquilo tudo já estava cansando. Tentou se mostrar, dizer que também estava ali, que também sabia do rinoceronte e tudo o mais de surreal que estava acontecendo. Mas tinha a boca cheia de pó e tudo o que conseguiu foi uma tosse seca, que lhe queimou os pulmões. Precisava se acalmar, organizar o pensamento e o corpo tão machucado, por dentro e por fora (mais onde?), encontrar a saída daquele pesadelo, sem dúvida o pior da sua vida. Na verdade, ele quase nunca sonhava, e quando isso acontecia, eram sonhos rápidos e inofensivos. Nenhum nunca tinha doído de verdade, em todos os ossos do corpo. A mão esquerda pressionava o peito, tateava em busca do buraco que deixava escapar tanto sangue, mas não encontrava nada, a sensação na ponta dos dedos era uma mistura de terra, tecido, pele e aquele líquido desesperador. Se conseguisse girar o corpo num impulso, talvez usasse seu próprio peso para empurrar o tronco e pudesse sair dali. Mas não conseguia, estava exausto, quase inerte. Pensou em dormir, antes de se lembrar que já o fazia, em outro lugar. Naquele quarto que tinha teto, sem poeira, sem pedaços. Com outros mamíferos mais familiares.
Outros gritos, vindo de espaços distintos, como se todos despertassem juntos. Um cachorro se aproximou, ele tinha pavor de cachorro. Fechou os olhos, sentiu a fuça do animal colada na sua, farejando, procurando água, a língua enorme e ofegante pendurada. Ele também tinha sede e sono. Como era possível? O cachorro ficou por ali, ele não conseguiu localizar a mancha do animal, o vermelho seco que identificava os personagens estúpidos daquela quimera empoeirada. Sem pensar, ensaiou um assobio, que saiu como sopro, mas o cachorro entendeu. Abanou a cauda, triste e discreto, e deitou por perto, as orelhas rasgadas, agora ele via. Só assim pra amigar com cachorro. Se divertiu imaginando que em breve o rinoceronte se deitaria por perto e ficariam os três juntos, esperando um despertar que parecia cada vez mais distante. Passos, com certeza eram passos, do ponto cego de novo, ao que tudo indica as coisas estava acontecendo ali. Queixo no céu, muito no alto, barulhos bem perto do seu ouvido, o sol queimando as retinas. Tentou chamar, mas de novo a poeira enchendo a boca, isolando sua voz dentro do corpo tão estropiado e irreal. Queixo no céu, quem tá aí? A angústia crescente de estar rodeado por uma árvore, um rinoceronte, um cão de orelhas rasgadas e muitas pessoas que gritavam e falavam e se moviam, sempre às suas costas. Queixo no céu, tentando ver. E viu. Era um homem, a mancha dele era a maior de todas, maior até que a do rinoceronte, em proporção e em termos absolutos. O homem saiu do maldito ponto cego, foi pra esquerda, a visibilidade ali era melhor, ainda bem. Caminhava lento, arrastando um pé que parecia quebrado, pensou ter visto um pedaço de osso e deve ter visto mesmo. Se olharam, mas o outro também tinha areia e lágrima nos olhos, parecia não ver que era visto. Era o pesadelo mais bizarro da história da sua vida, quiçá da história da humanidade. Parecia uma cena de guerra, pessoas e pedaços, pessoas sem pedaços, cada um por si no meio de todo o pó. Mas na guerra não havia rinoceronte. Nota mental: quando acordar, descobrir o que significa sonhar com rinoceronte. Segunda nota mental: acordar logo, tá doendo muito. Alguma coisa passou muito rápido no canto superior direito do seu campo de visão. No canto do campo. Parecia um tigre, mas aí já era demais. Confortável era olhar pro céu, pelo menos o pescoço não doía, já é melhor que nada. Achou as nuvens mais bonitas, mas perdeu a chegada do carro. Se atentou quando ouviu as portas batendo, será que eles teriam água? Tinha sede, muita. Via as pernas, só. Eram oito e muitos cabos. Duas eram femininas, de saia e meia fina, bonitas, mas também muito sujas de pó. E foi a dona delas que disse qualquer coisa sobre terremoto e zoológico e mortos. Não ouviu o número, pediu que ela repetisse, mas foi um pedido mental. Ela não lia mentes, alguém lê? Foram embora tão rápido quanto chegaram, alguém falou sobre socorro, ambulância, emergência. Ninguém falava sobre água, sobre o concurso de manchas de sangue. Ganharia o dono da maior? Até agora, era o homem do pé quebrado, do osso exposto, já o tinha perdido de vista novamente. Todo mundo ia embora, menos o cachorro e o rinoceronte. Só os bichos ficavam. Como eles iam ver quem seria o vencedor? O dono da maior mancha? Queixo no peito, a minha tá crescendo num ritmo alucinante, vai ganhar essa merda. Ganha o quê? Água? Ou o direito de acordar, que é preferível. Sentiu saudade da mão direita, sentiu saudade da filha. Queria que ela estivesse ali, pra ver um rinoceronte tão de perto, e solto. Ela sempre detestou o zoológico, toda a crueldade com os animais em benefício da diversão dos humanos. E o cheiro de merda. Desejou que a filha estivesse tendo um sonho bom. Desejou as melhores coisas do mundo pra menina, sempre fazia isso quando ela vinha à mente. E ela sempre vinha. Ia gostar de ver o pai embolado num cachorro, quem sabe não seria o primeiro passo pra eles terem um assim em casa. Um desses, bonitos, peludos, de rabo balançando, mesmo com as orelhas rasgadas. O cachorro dormia dentro do seu sonho, o rinoceronte parecia não fazer nada e ele esperava. Pensou ter escutado um helicóptero, mas não via nada no céu. Um tremor no corpo inteiro, não sabia se vinha de dentro, mas vinha de algum lugar. Era frio, com o sol a pino.  Não escutava mais os gritos, mas sabia que eles estavam ali, o choro de um bebê, a voz de uma mulher, o gemido de um homem. E os passos de um rinoceronte, que caminhava novamente, os chifres arranhando o céu. Um homem gritava, pedia cuidado, animal perigoso. A pressão caía ou subia, ele não sabia a diferença. Achou a voz, bem perto do bicho, alguma coisa nas mãos. Ele atirou, dardos coloridos, a ponta cor de rosa. Quem tinha ânimo para brincar nessa hora? Quatro na pele cinza e áspera e agora mais manchada do rinoceronte, que foi fechando os olhos aos poucos. Ele também. Sentiu o exato momento em que não conseguia mais respirar. Não eram os sedativos. Não acordou, nunca mais – assim como outras mil duzentas e quinze pessoas.

sobre-pessoas-normais-marcela-dantes

Sinopse:  Uma senhora que foge de casa em busca do passado; uma presidiária que escreve para o companheiro declarando seu amor; um homem doente que narra a rotina do hospital; a noiva que presencia um atropelamento a caminho da cerimônia de casamento, o goleiro que se vê diante do artilheiro em uma cobrança de pênalti, em meio a disputa mais que uma partida de futebol, um antigo amor. As histórias se desenham num tempo urbano e contemporâneo, com detalhes de cena que também narram os momentos vividos pelos personagens. Nos desenlaces singelos e atordoantes, o leitor pode mergulhar numa realidade permeada de afeto e violência, profundamente humana e imersa em doses de ambiguidade.

 

SERVIÇO

Onde? Casa Ateliê – Rua Gonçalves Dias, 3182, Santo Agostinho
Quando? 19 maio de 2016, às19h
Valor do Livro: 38 reais